Este estudo apresenta a identidade visual da Margarett, hamburgueria artesanal que quer ser percebida como experiência, e não como lanchonete. O trabalho partiu de cinco problemas da empresa, organizados pelo método RACI de identidade. A tipografia de alto contraste ficou responsável por sair dos códigos do segmento, a fotografia por valorizar o produto e o símbolo, feito de quatro formas simples, por funcionar como selo. A paleta de preto, branco e marrom e a embalagem kraft completam o sistema.
Palavras-chave: identidade visual; gastronomia; método RACI; tipografia; embalagem.
1Contexto
Com a multiplicação das hamburguerias, o produto ficou parecido aos olhos do cliente, e a disputa passou a acontecer também na experiência: o ambiente, a embalagem que chega em casa e a forma como a marca aparece nas redes.
Visualmente, o segmento se divide em dois caminhos muito repetidos: o código do fast-food, com vermelho e amarelo, ligado a rapidez e preço baixo, e a estética rústica de madeira e lousa. A Margarett precisava de um terceiro caminho, que transmitisse cuidado sem parecer cara demais.
2Base teórica
O Marty Neumeier tem um jeito simples de explicar marca: não é o que a empresa diz que é, é o que o cliente sente que ela é (Neumeier, 2008). A Margarett queria ser lembrada pela experiência, então o trabalho era fazer o cliente sentir isso antes de provar o hambúrguer.
A tipografia foi a principal ferramenta. Escolher uma fonte já é escolher um tom de voz: a mesma palavra soa diferente numa serifa de alto contraste e numa letra arredondada (Lupton, 2013). É assim que a marca sai do fast-food sem precisar dizer nada.
A matriz RACI, que organiza todo o resto, vem da gestão de projetos. No capítulo 4 eu conto como adaptei ela para o design.
3Problemas de design
Antes de desenhar, os problemas. Saíram da conversa com o cliente e da análise do segmento:
- P1Sair dos códigos do segmentoVermelho e amarelo lembram fast-food; madeira e lousa já não diferenciam ninguém.
- P2Ser vista como experiência, sem parecer inacessívelA marca precisa transmitir cuidado sem afastar quem acha que bonito é sinônimo de caro.
- P3Valorizar o produtoNo delivery, a foto é o que vende. A identidade precisa deixar o hambúrguer em destaque.
- P4Levar a experiência até a casa do clienteNo delivery, a embalagem é o único contato físico com a marca.
- P5Funcionar como seloEmbalagem, papel de bandeja e redes pedem uma marca simples o bastante para virar carimbo.
4Método RACI
O método RACI de identidade é meu, e parte de uma ideia simples: design existe pra resolver problema da empresa. Então cada elemento da identidade precisa ter uma função clara. Nada entra só pra enfeitar.
Na gestão de projetos, a matriz RACI cruza tarefas com pessoas e define quem executa, quem responde pelo resultado, quem é consultado e quem só é informado (PMI, 2017). No método, as tarefas viram os problemas da empresa e as pessoas viram os elementos da identidade: símbolo, tipografia, cor, grafismos, imagem, tom de voz e movimento.
O processo tem quatro passos:
- Levantar os problemas. Conversa com o cliente e análise do segmento pra listar o que a marca precisa resolver.
- Montar a matriz. Para cada problema, definir o papel de cada elemento com as letras abaixo.
- Desenhar. Cada elemento é criado a partir das responsabilidades que recebeu na matriz.
- Conferir. No fim, cada problema é revisto: o elemento que responde por ele fez a parte dele?
Responde
O elemento principal pra resolver o problema. Só um por problema.
Resolve junto
Elementos que trabalham junto no problema.
Apoia
Reforçam o trabalho, mas não carregam o problema.
Acompanha
Não atuam no problema, mas ficam coerentes com o resto.
5Matriz da identidade
A matriz mostra o papel de cada elemento em cada problema. Cada elemento foi desenhado a partir dela.
| Problema | Símbolo | Tipografia | Cor | Grafismos | Imagem | Tom de voz | Movimento |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| P1Sair dos códigos do segmento | R | A | R | I | C | C | I |
| P2Ser vista como experiência, sem parecer inacessível | I | R | C | I | R | A | I |
| P3Valorizar o produto | I | C | R | I | A | I | C |
| P4Levar a experiência até a casa do cliente | R | C | A | I | I | R | I |
| P5Funcionar como selo | A | I | C | I | I | I | I |
6Mapa da marca
Aproveite cada momento
7Símbolo
O símbolo desenha um hambúrguer com o mínimo de elementos possível. A economia de traço é o que permite que ele funcione como selo (P5) e que ajude a marca a se afastar das ilustrações detalhadas do segmento (P1).
- Semielipse. O pão de cima é a metade de uma elipse, mais larga que alta, desenhada só com o contorno.
- Barra. Uma barra grossa fecha a semielipse e dá peso ao símbolo.
- Triângulo. Um V a 45°, com um lado fino e outro grosso, sugere o queijo derretendo e leva o olhar para baixo.
- Linha final. O pão de baixo é só uma linha. Quatro elementos bastam para ler “hambúrguer”.

Esboço geométrico feito para explicar a construção. A arte final está nos arquivos da marca.
8Tipografia
A tipografia responde pelo problema principal: sair dos códigos do segmento (P1). Serifas de alto contraste vêm da tradição editorial e, segundo Lupton (2013), carregam um tom de cuidado e permanência que o fast-food não tem.

- Logotipo
- Serifa de alto contraste, toda em caixa alta, com espaço generoso entre as letras.
- Descritor
- “HAMBÚRGUER ARTESANAL” em versaletes pequenos e espaçados: informa sem disputar atenção.
- Cardápio e posts
- A mesma serifa nos nomes dos pratos, como “Império”, e uma sem serifa neutra nos textos.
9Cor
A paleta é curta de propósito. Em vez de competir com o produto, funciona como uma moldura escura que deixa o hambúrguer em destaque nas fotos (P3). O papel kraft da embalagem entra como cor de material e leva a experiência para casa (P4).
Proporção de uso sugerida:
Códigos HEX medidos nas peças. Confira os Pantone em um guia físico antes de imprimir.
10Grafismos e imagem
O símbolo isolado e o mote “Aproveite cada momento” funcionam como grafismos: aparecem soltos na lateral da sacola e na capa do cardápio, sempre com bastante espaço vazio em volta.
A fotografia é a principal responsável por valorizar o produto (P3): fundo escuro, luz quente lateral e o hambúrguer como único protagonista. As fotos usadas neste estudo são imagens de referência para simular essa direção de arte.
11Tom de voz e movimento
Seguro e com poucas palavras. O mote “Aproveite cada momento” responde por apresentar a marca como experiência (P2) e vai impresso na embalagem (P4). Nos pratos, a descrição é feita pelos ingredientes: “Império: carne, ovo, queijo e bacon”.
Proposto para os vídeos de produto: movimentos lentos de câmera e cortes suaves, no ritmo do mote. A calma do movimento apoia a valorização do produto (P3).
12Aplicações




14Resultados
De volta à matriz: cada problema conferido pelo elemento que responde por ele.
15Considerações finais
O posicionamento da Margarett nasce mais da contenção do que do excesso: poucas cores, muito espaço vazio e uma tipografia com história. Os próximos passos são produzir fotografia própria, para substituir as imagens de referência, e levar o sistema para a sinalização do salão.
Referências
- HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Gustavo Gili, 2013.
- LUPTON, Ellen. Pensar com tipos: guia para designers, escritores, editores e estudantes. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
- NEUMEIER, Marty. O abismo da marca: como construir a ponte entre a estratégia e o design. Porto Alegre: Bookman, 2008.
- PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Um guia do conhecimento em gerenciamento de projetos (Guia PMBOK). 6. ed. Newtown Square: PMI, 2017.
